O que dizer sobre a “greve”?

Traduzir:

    João Telles Corrêa Filho*

    A recente paralisação dos transportes rodoviários de cargas escancarou a incapacidade do governo para lidar com as tensões existentes na sociedade. Inicialmente tratado como greve, o locaute promovido por empresas e autônomos do setor lutou – e venceu – pelos dois mais evidentes fatores de sucesso de qualquer empreendimento comercial: menores custos de produção, neste caso representados pelo diesel, pelos pedágios e pelo IPVA, e maiores preços de vendas, obtidos através de uma tabela de fretes mínimos ainda em fase de negociação. No início este movimento foi inexplicavelmente tratado pelo governo e pela imprensa como uma greve, mesmo que a pauta de reivindicações não trouxesse nenhum item próprio de uma greve: melhores salários, mais benefícios, etc. Assim, como um médico que diagnostica uma tuberculose como se fosse reumatismo e prescreve cortisona ao invés de antibióticos, a área de inteligência(!) do Executivo não enxergou o que ocorria e, tal como aquele mau médico, agravou o estado de saúde do paciente.

    Com este erro básico cometido, o Brasil agora contabiliza os prejuízos que se materializaram na disparada do dólar, no crescimento do custo com transporte de mercadorias, no aprofundamento do déficit fiscal em mais uns 10 ou 12 bilhões de reais e, muito mais grave, no avanço do intervencionismo estatal na economia, com medidas típicas das décadas de 1970 e 1980 que desorganizarão ainda mais a já confusa economia nacional. O governo de Michel Temer, que começou prometendo e, até certo ponto promovendo, medidas importantes como a reforma trabalhista, a “lei do teto”, a reforma previdenciária e a reforma do ensino médio, parece destinado a nos empurrar de volta para o passado, para os tristes anos da administração Sarney, quando um grupo de coronéis do sertão achou por bem lidar com os conflitos sociais e econômicos criando um exército de “fiscais do Sarney” e caçando bois no pasto. Ainda não dá para dizer que voltamos àqueles tempos, mas a tentação parece grande; Pedro Parente, nomeado Presidente da Petrobrás com a missão clara de reerguer a empresa do desastre promovido pelo PT, viu seu sucesso ser recompensado com fritura e demissão, assim como já havia ocorrido com a ex-presidente do BNDES Maria Silvia Bastos Marques, responsável por tentar bloquear a ação dos políticos sobre o banco, e já há rumores de que o Presidente do BC terá o mesmo destino se o dólar não voltar “ao normal” (seja lá o que for isso).

    A pouco menos de quatro meses das eleições, a atuação crescentemente errática do governo só faz aumentar a perspectiva de um segundo turno disputado por extremistas desequilibrados e de uma não renovação do Congresso Nacional. Se isso acontecer – e vamos rezar para que não aconteça – é muito possível que venhamos a repetir o desastre Collor, um governo liderado por um outsider sem apoio do Legislativo para tentar reformar nossas carcomidas instituições. Em um cenário assim, ficarão de fora do jogo políticos mais sensatos e corretos e, principalmente, pessoas que representam a inovação em um país que insiste em tratar dos problemas do século XXI com as ferramentas do tempo da guerra fria. Ainda é um mistério saber como trazer o novo em uma eleição desenhada e regrada para garantir que prevaleça o velho, mas cada um de nós, como eleitores, tem a obrigação de dedicar tempo para garimpar, dentre as centenas de opções registradas, nomes de pessoas que representem a chance de sairmos dessa crise endêmica que nos consome enquanto sociedade desde que a infeliz Constituição de 88 entrou em vigor. É certo que golpes militares e governos populistas comprovadamente resultam em mais atraso e é igualmente certo que o modelo em vigor não trará nada de bom; isto quer dizer que necessitamos com urgência de pessoas com força, lucidez e apoio suficientes para reconstruir (e não apenas reformar) a nação desde seus alicerces. Só assim poderemos resolver os problemas que se eternizam desde o Império (saneamento básico, educação fundamental, etc, etc, etc) para, enfim, construir uma sociedade com nível de vida pelo menos aceitável.

    * João Telles Corrêa Filho é engenheiro e consultor empresarial (www.tellescorrea.com.br).